Ticiane Caldas
Estudante de História

Sou a filha mais nova de seis irmãos, pais separados, sendo a única renda da casa, por muito tempo, só vinda dos dois empregos da minha mãe. Durante a infância vivia sonhando em crescer rápido para ajudá-la, e foi isso que aconteceu: comecei a trabalhar com 15 anos como empregada doméstica. Isso fez com que eu parasse de seguir nos estudos, e mais tarde, com muito esforço, consegui terminar os estudos na EJA quando já tinha 20 anos.Ticiane Logo arrumei um emprego em uma loja onde continuei por um longo período, pensando que era bom para mim, pois tinha um emprego estável. Mesmo assim, sempre sonhei em cursar faculdade, pensava que possibilitaria uma melhor condição de vida, mas junto do sonho sempre estava a dúvida se eu seria capaz. Até que um dia meu namorado, sempre companheiro, me apresentou o Projeto Integrar. Comecei a estudar com bastante dificuldade, pois estava trabalhando no shopping de segunda a domingo, o que me fazia chegar na sala de aula muito cansada e me levou muitas vezes a pensar em desistir. Fui até o final do ano de 2012 e prestei o meu primeiro vestibular, e após toda caminhada nada fácil , fui aprovada. A partir da aprovação vieram novos obstáculos, pois o meu curso seria no período vespertino e eu teria que me desvincular do emprego. No contexto dos estudantes de classe média isto seria possível, visto que eles têm garantia do apoio financeiro dos pais ou responsáveis, mas para mim não foi nada fácil, bem como para muitos membros da GESTUS, que estamos acostumados a lidar com situações de colegas desistindo dos seus sonhos por forças maiores, como sustentar uma família. Entre outros obstáculos, pessoas que estavam ao meu redor diziam que eu não possuia mais idade para estudar ou que deveria procurar algo que não tivesse a necessidade de sair do emprego. As indagações e sugestões sobre o que eu deveria fazer da minha vida faziam com que eu me perguntasse se estava no caminho certo, mas também me faziam perguntar sobre o que me impediria de estar ocupando este espaço. No início de 2013, aos 24 anos comecei o meu curso. Vi que seria muito difícil de diversas formas academicamente, principalmente financeiramente e psicologicamente, pois algumas Universidades Públicas brasileiras não estão preparadas para lidar com contextos históricos distintos dos estudantes, e em muitos casos, não dando prioridade àqueles que são vulneráveis economicamente. Por meio das Ações Afirmativas, consegui entrar na Universidade. Encontrei bastante dificuldade com a escrita acadêmica e poucos professores com disponibilidade de ensinar. A GESTUS tem papel fundamental na minha permanência. Fazer parte desse grupo é tornar sonhos realidade.