Michele Mafra
Estudante de Arquitetura e Urbanismo

Tenho 21 anos. Meu primeiro emprego foi com 15. Eu tenho es irmãos, uma de 17 anos que tem deficiência mental leve e dois meninos (15 e 12 anos). Minha mãe é empregada doméstica. Meu pai? Até pouco não sabia o que era ter um.
Desde cedo eu tive que trabalhar, mas sempre consegui conciliar trabalho e estudos, pois via que onde eu poderia mudar de vida seria estudando.
Minha mãe não tem estudos, trabalhou desde cedo como empregada doméstica, sempre fez de tudo por mim e por meus irmãos, mas nunca pode pagar pelos nossos estudos. Sempre estudamos em escola pública. No terceirão fui procurar pré-vestibulares, mas uma mensalidade era o salário inteiro da minha mãe! Foi então que encontrei o Integrar. Nesse período eu estudava de manhã, trabalhava à tarde e fazia o cursinho à noite.Michele Era uma rotina bem puxada, mas sabia que não poderia desperdiçar a oportunidade. Muita gente achava que eu não iria conseguir. A coordenadora do meu colégio me perguntou para qual curso eu iria fazer. Falei arquitetura. Ela me olhou bem séria e disse: ‘Você acha mesmo que vai conseguir acompanhar as aulas? Como você vai fazer pra trabalhar? Eu tinha mais pessoas contra a minha decisão do que a favor. No final de tudo eu passei na UFSC. terminei o terceirão e me coloquei de cabeça para o Ensino Superior. Vi que não seria nada fácil levar o curso adiante. Meus conhecimentos eram defasados em relação aos meus colegas. A maioria veio de escolas particulares, já tinham viajado pelo mundo. E eu? O mais longe que já tinha ido foi para o RJ. Descobri também a burocracia infinita para conseguir uma bolsa. Na minha primeira tentativa eu não consegui, meu nome não estava na lista eu queria morrer naquele momento. Foi um dia muito difícil, pois eu só poderia ficar na universidade se tivesse essa bolsa porque a minha mãe não teria como me ajudar financeiramente. Os materiais eram caros, as cópias, tudo isso era e é um gasto muito grande. Como chorei naquele dia, chorei muito, mas enxuguei as lágrimas respirei fundo e fui me informar sobre o porquê de não ter sido contemplada. Descobri que haveria uma segunda chamada. Depois de muita tristeza saiu o novo resultado e lá estava meu nome Aquilo era algo tão simples pra muita gente, mas pra mim era algo que definiria minha caminhada na graduação. Para uma pessoa pobre, mulher e negra se manter na universidade é algo muito difícil. Graças a GESTUS e ao Coletivo Negro que faço parte eu tenho forças pra continuar essa caminhada, pois estou em um lugar que não foi feito para a população pobre e muito menos para a população negra, mas eu resisto e só sairei da universidade com o meu diploma. Serei a primeira pessoa da minha família a se forma em uma universidade pública. Eu vou resistir!