Escola sem Partido?

*Por Daniel Pereira Xavier de Mendonça 

Uns quinze anos atrás, no então “terceiro colegial”, tive um professor de História que se autodeclarava comunista. Escapa-me a imagem do rosto de todos os outros professores e professoras daquele ano, menos do professor comunista, chamado Marcos Vinícius. Ele usava um tipo de cavanhaque híbrido, com a parte de baixo triangular como a de Trotsky e o bigode volumoso ao estilo Tom Selleck na série Magnum. Em suas aulas aprendi na prática uma lição que confirmaria depois em Walter Benjamin: o tempo não é homogêneo; ele corre açodado nos momentos de imaginação e pulsão criativa e tediosamente vagaroso em situações protocolares. Não havia em seu modo de ensinar qualquer resquício de neutralidade, imparcialidade, qualquer traço de obediência cega às diretrizes curriculares, especialmente as que pretendem nos fazer crer que exista algum discurso fora do espectro da ideologia, que é possível (e desejável) que os professores se mostrem como sujeitos sem posicionamento político, ou se o tiverem que o separem de sua prática docente.
O professor comunista levava canções de Chico e Caetano, falava sobre a “Ópera do malandro” de forma tão viva que tínhamos a impressão de estar dentro do espetáculo – não na plateia, mas na própria narrativa; éramos naqueles 45 minutos personagens daquelas histórias. Ele mostrava como os termos utilizados nos livros históricos, como “revolução”, “conflito”, “invasão”, não eram neutros, e apontava contradições em diversos usos; criticava sem medo o próprio material didático, sem no entanto bani-lo das aulas; problematizava cada comentário dos estudantes e dele próprio; incentivava-nos a criar um grêmio estudantil, mostrando-nos na prática as dificuldades inerentes às negociações políticas.
O professor comunista tinha carisma e falava com paixão e convicção, o que fatalmente atraía as atenções para si. Vários estudantes do terceiro ano do Instituto Americano de Lins – ao menos os que gostavam dele – eram potenciais guerrilheiros prontos a derrubar o capitalismo. Alguns resistiam, outros se limitavam a ler a Caros Amigos do Che Guevara e incomodar os pais com perguntas de cunho social, mas a sensação que se tinha é que aquele professor nos fazia enxergar o mundo de uma forma que parecia ter sido escondida de nós até então.
Certa vez ele leu os trechos iniciais de “O povo brasileiro”, de Darcy Ribeiro, e ao final da aula já estava falando de Gerson King Combo, cinema político italiano e moratória da Argentina, “tudo ao mesmo tempo agora”. Um ano depois, no pré-vestibular do mesmo colégio, vim a ter aulas com ele novamente, e algumas vezes depois da aula íamos ao Bar do Jorge esticar a conversa, que invariavelmente resultava em histórias engraçadíssimas, generosamente contadas com a sutileza de um bom cronista.
Lembrei-me desse professor porque nesta semana assisti ao debate transmitido pela TVCom sobre os supostos perigos de uma suposta “doutrinação ideológica” nas escolas brasileiras. Presente no debate, o advogado Miguel Nagib, do movimento Escola Sem Partido, mostrou que além da zuera a estupidez também não tem limites. Não deixou ninguém falar e foi soltando, com convicção feroz, uma cretinice atrás da outra.
A grande sacada retórica de Miguel Nagib e asseclas vem do fato de que o discurso hegemônico, conservador, canônico, já está naturalizado na educação há muitas décadas, e dessa forma esse discurso não é interpretado como “doutrinador”. Para defender ideias conservadoras não é preciso afirmá-las, pois elas já estão postas; assim torna-se mais difícil superá-las, já que qualquer contraponto, qualquer visão dialética do mundo, qualquer posicionamento contrário vão ser vistos como contaminação ideológica, enquanto que permanecer “em cima do muro” transmite uma imagem de neutralidade, ao mesmo tempo que fortalece o discurso hegemônico. Omitir-se também é tomar partido.
E ainda aguardo o dia em que o pessoal do movimento Escola Sem Partido venha a público denunciar a doutrinação nacional-militarista dos desfiles de sete de setembro, a doutrinação antidrogas do Proerd, a doutrinação consumista do Dia das Mães, a doutrinação religiosa das atividades de Páscoa e outras doutrinações aceitas e plenamente disseminadas nos colégios brasileiros desde sempre.

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