Dois plantios (e alguns sulcamentos)

Dois plantios (e alguns sulcamentos)

Mariana Lange*

 Olhos medindo o longe desde um dos pontos mais altos da cidade em pleno sábado de chuvas anunciadas – assim aconteceu mais uma reunião dos membros da Gestus. Começamos reunindo rabiscos, rascunhando escritas e farejando os vapores da feijoada preparada no cômodo contíguo. Ousamos revirar a memória a fim de esboçar um escrito: de tudo que foi visto, lido, estudado, que questões despertaram interesse a ponto de gerar um gesto de escrita para produzir um artigo acadêmico? Estudantes-escreventes se puseram a criar perguntas.

horta 02

Antes da feijoada, discussões sobre o “coronelismo acadêmico” que, mesmo sem esse nome, aparece em repetidas doses no momento exato da decisão de escrever ou não escrever. Preciso de um orientador? Preciso que algum professor me autorize? Posso prosseguir somente partindo de um interesse meu? Ah, a escrita… liberta demônios, feromônios, maniqueísmos.

A roda recebeu diversas vozes, leituras de escritas feitas à mão mesmo, no calor do momento, já avançando o meio-dia. Estudantes de diversos cursos, membros participantes da Gestus, começaram – autorizados pelo simples desejo de escrever – um rascunho que cunhou o primeiro passo do que virá a ser artigo um dia. O feijão já cheirava, quem cozinhava largou a panela para escrever.

A Gestus organiza movimentos de amparo aos estudantes que ingressam na vida acadêmica. A transmissão de saberes deve acontecer não apenas pelas ementas oficiais, e sim pelos laços e pelo próprio compartilhamento de experiências. A Gestus nos faz lembrar que a vida (nem mesmo a estudantil) não é feita de editais e inscrições, mas sim de envolvimento – até para dar sentido aos editais e às inscrições.

Muito vem sendo trabalhado (e escrito) na Gestus. Temos arquivados muitos tipos de papéis, como atas, documentos, registros de toda ordem. Cabe aqui retomar Michel de Certeau: “A escrita acumula o produto deste trabalho”, deixando rastro, fazendo história. Nos vapores da feijoada, começava um trabalho outro: um registro escrito que futuramente ganhará formato e valor acadêmico – para alguns ali, seu primeiro escrito acadêmico.
Almoçamos. Nos sulcamentos da minha memória passeava sem parar um trecho do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa: “Agir, eis a inteligência verdadeira. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”. Era dia de agir, mais uma vez. E mais lentamente, depois da feijoada…

As crianças chegaram. Partimos para a terra e outro plantio. Agora, outros sulcamentos: os rastelos daquelas mãos
pequeninas deixavam a marca funda que ficou para a semente pousar. Onde estará o palácio se não o fizerem ali? Para haver horta, era preciso preparar a terra e preparar as pessoas. Dois plantios.

A feijoada estava sensacional. A farofa, destaca o antropólogo Roberto Da Matta, é brasileiríssima, elo que nos lembra da mistura e da miscigenação. Misturamos horta e escrita. E não choveu.

 

*psicanalista, coordenadora de Oficinas de Escrita na Gestus

 

 

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