Além… e muito mais

Por Mariana Lange
Psicanalista, professora Integrar/GESTUS

 

Para aqueles que quiseram, por um instante, enxergar além, foi feito o convite: “rolezinho no museu”, contemplando a exposição de 112 obras do artista catalão Joan Miró (1893-1983) intitulada “A força da matéria”. Para aqueles que realmente enxergaram além, a oportunidade de apreciar coletivamente parte do acervo desse artista internacionalmente conhecido em pleno desterro, no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), no Centro Integrado de Cultura (CIC), não poderia ser ignorada. 

E lá fomos nós: em uma tarde de primavera com ventos geladíssimos – concorrendo com o festival Amanhecer contra a redução da maioridade penal e um aulão pré-vestibular aberto que acontecia na cidade no mesmo horário – almas curiosas atraídas pela arte se reuniram no hall do CIC. Estudantes e professores, guiados pelas preci(o)sas informações do guia-narrador da história de Miró e o seu envolvimento inusitado com a arte, enveredaram pelos corredores em cujas paredes estavam dispostos alguns dos mais significativos desenhos, pinturas e gravuras de Miró, bem como registros fotográficos de seus momentos de trabalho no ateliê.

Pelo que passamos a conhecer com o fio oferecido pelo nosso condutor-narrador, Miró, sentindo-se desafiado a investir no que acreditava, em alguns momentos precisou deixar a família para trás, seguindo um rumo tido como incerto, porém intuído como sendo o melhor. E o luto desse passo ousado aparece também na sua expressão com as tintas e pincéis, com cores mais fechadas e escuras lá onde esperaríamos (a julgar pelo que Miró tem como destaque, o uso de cores primárias) tons mais vivos. O que ele tinha de mais vivo, além da coloração das tintas, era a visão de que o seu caminhar seria com um experimento – arriscado, diriam alguns – chamado vida.

Portanto, nessa direção também iria a sua arte. Miró não se contentava em criar com telas e tintas, ele buscava materiais além do usual. Pintava em tecido, papelão, superfícies de materiais considerados lixo… E mais: pintava em pé diante da superfície-obra estendida no chão. Pintava não buscando o belo, mas sim o extraordinário, aquilo que vai além do que o ordinário olhar busca ver na arte. 

Interessado no surrealismo e habitando as beiradas fronteiriças com as ciências do inconsciente, Miró também buscou experimentar(-se) – ele experimentava materiais ou era a ele próprio que experimentava conhecer? – na área das esculturas. Travestia de luxo o que era lixo quando usava o nobre bronze para criar a partir de materiais rejeitados.

Nas palavras do estudioso dos ímpetos e das ousadias criadoras Philippe Willemart: “o texto é muito mais um espelho que uma janela”. Quiçá possamos aplicar isso à arte de um modo geral. Assim, caso tenhamos o ímpeto de olhar e escutar mais além, perceberemos a importância da quebra de expectativa, capaz de nos mover na direção de outras veredas.

Podemos imaginar que os professores e os professores do Projeto de Educação Comunitária Integrar estão interessados em tudo que aponta para além. Daí cremos que, afinado com esse sentimento, há o desejo de conhecer-se para lançar-se cada vez mais além. E desconhecer-se também, afinal, somos inquietude e desassossego. E além.

Em muitos momentos nosso método é esse: partimos do que já existe e tentamos criar algo diferente, algo que permita esticar o horizonte, algo que amplie o sonho e que possa sacudir o já estabelecido. Formamos esse coletivo chamado Integrar para que possamos experimentar e experimentar-nos nas vivências dessa coletividade.

E este foi mais um “rolezinho” pelas experiências que a cidade oferece a quem se interessa em ir além. Trilhamos o caminho até as últimas obras (inacabadas, pois não foram nomeadas nem assinadas) desse artista que, sem dizer, nos fala de infância, simplicidade, rompimento, intervenção, corpo, guerra, sociedade.

Veja (ou melhor, encontre-se com) o quadro abaixo.

 quadro

Procedimento:

1) Olhe;
2) Olhe bem;
3) Veja o que um visionário veria;
4) Incline um pouco a cabeça à direita;
5) Perceba-se sorrindo;
6) Saia por aí.

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